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Os pacientes “vivedores”

Os pacientes “vivedores”

Mesmo nas piores situações imagináveis, alguns pacientes preferem se manter positivos.

Durante os últimos 30 anos de vida profissional como médico cirurgião de fígado, vias biliares e transplantes, venho cuidando de pessoas, na maioria das vezes, portadores de tumores e doenças muito graves que podem levar a morte em curto período de tempo. Essa experiência me fez observar e tentar analisar o porquê alguns pacientes apresentam excelente recuperação de um complexo tratamento cirúrgico e, outros, não.

Lembro, claramente, dentre alguns milhares de casos graves tratados, um em especial. O paciente se encontrava em uma situação muito desfavorável e sem a possibilidade de um tratamento curativo. Estava internado por mais de 60 dias, com 3 drenos que saiam do abdome e exteriorizavam bile, secreções e um pouco de sangue. O caso era terminal e muito grave. Todavia, ao entrar, diariamente no seu quarto, e lhe perguntar como se sentia, a resposta era sempre a mesma: “Maravilha, melhor impossível, doutor!”. Esta afirmação sempre ficava martelando na minha cabeça. Como pode alguém tão doente, conhecedor de seus problemas e ciente da sua gravidade, estar tão bem?

Na verdade, eu sempre enfatizei para os meus pacientes que o conhecimento do seu problema e a confiança no tratamento eram fundamentais para o sucesso de um procedimento tão complexo. Sempre mostrei que, pelo menos a metade do tratamento, estava nas mãos do paciente, ou melhor, na mente do paciente. Mais recentemente, um paciente submetido a um transplante de fígado em gravíssima condição clínica, pai de família e próximo dos 50 anos de idade, depois de passar por toda a espera que um transplante requer, ter sido submetido a uma das maiores operações já realizadas em um ser humano, quase jogou a toalha.

Inicialmente, por que não conseguia se alimentar e precisar de uma sonda que, através do nariz, chegava ao intestino, para que a alimentação necessária fosse administrada. Isso para ele era a morte! Mesmo depois de tudo que passou e de ter superado o pior. Internado há várias semanas e com um quadro clínico inesperado, entrei no quarto dele e comentei: “Sabe que durante a minha experiência médica pude observar dois grupos distintos de pacientes, os vivedores e os outros, que prefiro nem mencionar como os defino. Meu amigo, você não está no grupo dos que denomino vivedores, mas tenho certeza de que você estará bem, de volta a sua família e curado, se quiser! Por isso, que tal mudar a cabeça e o grupo?”

Hoje, recuperado, este paciente é mais um dos inúmeros que me ajudaram a fazê-los sobreviver. A medicina tem evoluído de forma extraordinária. Tem possibilitado diagnósticos e tratamentos que foram, até poucos anos atrás, inimagináveis. Mas, a vontade de viver, o compromisso com a vida, a confiança no profissional que o atende, a resiliência, estão intrinsecamente unidos à recuperação de um enfermo.

Sou um dos maiores apaixonados pela inteligência artificial, pelo big data, pelos robôs que serão capazes de diagnosticar e mostrar o melhor caminho para médicos e pacientes. A tecnologia já é, e será ainda mais, responsável pelos bons e precisos diagnósticos, bem como por boa parte do sucesso do tratamento. Mas, quando eu estiver muito doente, gravemente enfermo no hospital, quero uma mão amiga e o carinho do médico que elegi como o depositário da confiança para a melhor decisão e esclarecimento das minhas dores ou do meu digno fim.

Fonte: Veja.com

1 comentários

  1. mblife

    Em casos em a doença é progressiva mas não houve alterações neurológicas ou ataques ao SNC nos últimos 11 anos, com diagnóstico exatamente há 11 anos tmb? O que se pode dizer: está estagnado ou está apto tmb a fazer o transplante?

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